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terça-feira, 10 de janeiro de 2012

Mais um felino localizado

   
Um Jaguar com Pedigree

Salvador está parecendo uma selva, cheia de feras escondidas!

Calma, o blog continua focando no antigomobilismo e não da violência, corrupção, incompetência municipal ou outros temas tão contemporâneos.

As feras mencionadas são ferozes e indomáveis, porém, totalmente do bem!

Depois do Puma de Campêloentocado por mais de 20 anos perto do aeroporto, mais um grande felino é localizado e está prestes a abandonar uma longa hibernação: um autêntico Jaguar.


O caçador da vez - ou garimpeiro se preferirem - foi David Opaleiro do Clube do Opala, que passou muito tempo tentando registrar a fera escondida em sua "toca de plástico". Aqui vale uma curiosidade: a resistência dos donos foi vencida pelo Opala 73 de David, quando foi utilizado numa entrega de Sedex.

Tomei conhecimento através do conhecido rodder Ulisses Britto do Veteran Bahia, que agitou o grupo de aficcionados ao repassar as fotos do raro e charmoso fabricante inglês.

A descoberta em si já seria suficiente para muita euforia, mas, desde o momento que conferi a primeira foto uma idéia tornou-se dominante: e se o exemplar além de raro fosse histórico? Essa idéia não saiu mais da cabeça, acompanhada da impressão de que eu tinha visto esse modelo em algum lugar. Até que ...

O Antigomobilismo Esportivo mais uma vez em festa

Confirmado: trata-se de um icônico remanescente das incríveis e históricas corridas da Avenida Centenário, porém, não como competidor.


É um dos felinos do famoso Aristóteles Moreira - diretor de prova da Federação Baiana de Automobilismo na época - que eram usados, quando necessário, como "carros madrinha".

Na foto - a que atiçou minha memória -  um deles cuida da largada em situação de chuva, à frente do famoso Puma da equipe AF e dois valentes Fuscas que ocupavam a primeira fila.

Esse raro registro faz parte do arquivo disponibilizado por Maurício Castro Lima, que resultará (breve) numa série de postagens sobre o desafiador circuito de rua soteropolitano, antes de ser banido pelos governantes.


Esse Jaguar - ainda portando placas amarelas - apresenta as inevitáveis marcas da idade, porém, sem perder a beleza em cada detalhe.


Uma importantíssima parte da história, muito bem conservada, que segundo rumores pode ser brevemente resgatada e restaurada, com todo seu brilho e exuberância.

E um outro detalhe atiçou  nossa curiosidade: há um segundo exemplar de Moreira, conversível e com carroceria em alumínio. As fotos tiradas por David apresenta-o sob uma capa de proteção. Observem as placas em sequência.

David prometeu tentar novas imagens, sem a cobertura, que esperamos ansiosamente!


A pergunta que não quer calar: será que trata-se do Jaguar de corrida que acidentou-se numa das provas da Centenário?

Com a palavra, os "universitários"!

Aguardamos informações.
   
Atualização:

David já se manifestou dizendo que o Jaguar conversível - cinza - está intacto e é belíssimo, descartando portanto a possibilidade de ser o exemplar acidentado nas corridas de rua da cidade.

Marco Medeiros, garimpeiro mor do Veteran, onde está esse Jaguar, guardado até hoje com as "cicatrizes de batalha"?




quarta-feira, 21 de dezembro de 2011

Puma VW Espartano (02) - O Retorno

      
Uma Imagem Rara

Prosseguindo a série sobre a lendária equipe AF, que brilhou na Bahia - e outros Estados - na transição dos anos 60/70, destaque para o Puma Espartano "verdadeiro"!

Para comemorar essa "retorno" no tempo - patrocinado pelo inestimável apoio do piloto Maurício Castro Lima - e saciar a curiosidade de muitos, uma rara foto colorida desse ícone do automobilismo.


Segundo fruto da vitoriosa parceria da Escuderia com a fábrica Puma, o modelo 1969 foi entregue a tempo dos 500 Km de Salvador e apresentava grandes inovações: era um Espartano "verdadeiro" com a fibra mais fina e aparentemente o único Puma/Porsche - motor e caixa 1.600 - que saiu da fábrica.
      
Tinha as mesmas características do modelo 1968 - concebido totalmente para competições - e mais o acrílico com vigias de correr em substituição aos vidros secundários e caixas das rodas recortadas para comportar os largos pneus, além do menor peso da carroceria. Herdou - no primeiro momento - o número 17, enquanto o 1968 passou a portar o 71 e o fusca o 717.


Leve e com a mecânica apimentada, o "foguete" estreou na prova de longa duração - pilotado pelo mitológico Lulu Geladeira e André Burity - com a configuração de fábrica.

Em 1970 - já com mecânica VW 1.900 e componentes Porsche - assumiu o número 71 e apresentou um visual muito mais agressivo. Incorporou entradas de ar sobre o teto e radiador de óleo no capô, além de rodas de liga leve com duas polegadas extras.

Observem o modelo 1978 no segundo plano, já com as entradas de ar tipo periscópio.

Uma curiosidade

Na temporada de estréia (1969), quando ainda portava o 17, o Espartano Puma/Porsche foi surpreendido no Ceará por um outro concorrente com o mesmo número. Assumiu o número 1 após um apagamento emergencial do sete, conforme registrado abaixo.


Portar o número 1 não deixou de ser um "justiça poética", visto as incontáveis vitórias conquistadas por esse belo exemplar.

Infelizmente não há registro sobre o destino do felino após a "Idade das Trevas" do automobilismo baiano, com a proibição das corridas na Avenida Centenário.

Dedico esse retorno aos amigos James, Fábio, Maurício, Che e Vinícius.

Informações e acervo de imagens: Maurício Castro Lima

domingo, 1 de maio de 2011

Avenida Centenário - sentido horário

   
O Impagável Lulu Geladeira

Mestre da Barra, Rei da Centenário, Terror do Nordeste, Gigante da Cidade Baixa ... quantas expressões se aplicariam a Luis Pereira dos Santos, baiano, mais conhecido como Lulu Geladeira.


O apelido, meio alegórico, veio de seu envolvimento com refrigeração, profissão real no tempo em que corridas eram puro romantismo não remunerado.

Essa atividade o livrou de alguns apertos, principalmente no colégio que estudava, por ser responsável pela manutenção das cantinas e laboratórios. O que dizer então da refrigeração com gasolina, quando "apagava" a ignição do motor - com um botão na alavanca de câmbio -  nas descidas do circuito de rua e usava o combustível como refrigerante? Ao ligar o motor, a gasosa não consumida gerava em enorme língua de fogo no escapamento - um show à parte - enquanto o óleo já tinha perdido alguns graus de calor.


Veio do Kart, tendo participado, e ganho, a primeira corrida da categoria na Lagoa do Abaeté.

Foi piloto da bem estruturada equipe AF - Adriano Fernandes - com o patrocínio da Puma, Lajes Volterrana e concessionárias VW e apoio da Caria Ribeiro. Conduzia o antológico Puma amarelo nº 17 ou 71, primeiro Espartano a ser fabricado e que contava com a presença de Jorge Lettry - um dos pais da fera - na assistência técnica oficial de fábrica.

Os raríssimos Espartanos eram, como sugere o nome, pumas aliviados e preparados para competição. Tinham a fibra afinada e detalhes escolhidos pelos pilotos, como as tampas ampliadas para facilitar o acesso à mecânica. Poucos foram fabricados, sendo o primeiro enviado direto para Lulu. Após a "aposentadoria forçada" seguiu para São Paulo e perdeu-se no anonimato. Quem sabe?


O motor 1.8 - ultra vitorioso - foi convertido em 2.2 pelo próprio Lulu, que era o mecânico e afinador da usina, tornando-se praticamente imbatível. O carter seco conduzia 40 litros de óleo, com radiador, no lugar dos 2.5 litros convencionais.


Afirmava que o carro pouco importava, sendo confiante exclusivamente no próprio talento. Os pilotos corriam com protótipos, ou seja, cada um equipava e motorizava o carro como queria, independente de marca, potência ou cor. Chegou a entregar o Puma para que os adversários desmontassem e descobrissem os "segredos" de preparação.

"Que mais eu podia fazer?"

Averso aos pegas, que considera um desrespeito total, foi um dos grandes nomes das corridas da Avenida Centenário, circuito de rua de sentido horário para desestimular as comparações de tempo com arruaceiros macanizados.

Só como referência, a pista da Centenário tinha 3.090 metros e a corrida 35 voltas, em média. Os boxes ficavam onde é o Habib´s.

Av. Centenário

O respeito era tão profundo que o acidente na Curva do Calabar, que culminou na invasão de uma casa com um poderoso Jaguar, foi imediatamente desculpado pelo assustado morador. Bastou pagar os prejuízos e dar um autógrafo.

Jaguar XK

O raro bólido felino está, até hoje, no mesmo estado terminal, guardado em algum lugar de Salvador. Com a palavra, nosso Garimpeiro Mor Marcos Medeiros.

Apesar do destaque com o Puma, Lulu Geladeira pilotou muitos carros em incontáveis circuitos. As Provas do Farol da Barra e da Cidade Baixa são inesquecíveis, enquanto Ferrari, DKW e Jaguar fizeram parte do seu portfólio. O circuito do Farol ia até o Morro do Cristo, voltando pela apertada Afonso Celso.

Ferrari na Barra

Participou de muitas competições no Nordeste, principalmente Recife, e Fortaleza que contava com autódromo de verdade.

Lulu persegue o Topo Gigio, veloz fusca com teto de Karman Ghia

No automobilismo regional nordestino, Lulu Geladeira era o homem a ser batido e isto numa geração de bons pilotos como os cearenses Neném Pimentel, Antonio Cirino e Arialdo Pinho, os pernambucanos Fernando Burle e Ramon Cortiso (Topo Gigio), e os baianos Leonardo Godoy, Carlos Medrado, Mauricio Feinstein, Ivan Cravo, José Luis Bastos, Maurício Castro Lima, Johnny Brusell, Renato Accioly, entre outros.

Lulu conquistou a primeira vitória oficial na inauguração do Autódromo Virgilio Távora, em Fortaleza, em 1969.

Lulu em Fortaleza

Uma curiosidade: os 500 Kms de Salvador terminou numa delegacia de polícia, devido a uma "pataquada" (sic) da turma de Brasília. A pancadaria nos boxes foi generalizada e sobrou até para Jorge Lettry.

Em Fortaleza, o mito da "refrigeração" virou o "causo" do refrigerante, que ganhou até manchete de jornal. Lulu teve de parar no meio do circuito por causa de um câmbio travado. Ganhou um guaraná de um fã, desencavalou a marcha e ainda conseguiu ganhar a corrida!

Lulu de DKW

A última corrida da Centenário - 1972 - coincidiu com a fim das corridas na Bahia, imposição do governador Antônio Carlos Magalhães, que as detestava. Um engarrafamento na ladeira da Barra foi a gota d´água.

Foram 33 anos de jejum para o automobilismo baiano, quebrado em 2005 com a corrida do Comércio. Não por coincidência, o governador é outro e a influência política também. Trouxe até a stock-car para os "jardins" da governadoria!


Lulu foi lembrado, parcialmente, por Allan Kodhair, e deu uma volta nos poderosos tubulares da Stock, que classificou como "violentos". Adorou a experiência, mas, não teve direito nem a um convite para assistir a etapa. Triste!


Infelizmente o bloqueio cobrou muito caro ao segmento, que nunca realizou o sonho de um autódromo de verdade, e teve um apagão de patrocínios, pilotos e equipes. Lulu foi convidado por outros Estados e Países, mas não quis deixar a família e a profissão.


Esse "baixinho" de 84 anos, carismático e gentil, agiganta-se na história do Automobilismo Brasileiro.

Um nome a ser lembrado para sempre!

A telentosa vídeomaker Kátia Monteiro produziu um incrível documentário sobre Lulu.

São cinco capítulos imperdíveis! 

Aguardem!